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Recálculo das vantagens pessoais “VP-GIPs”: posicionamento favorável do TST

O assunto de hoje interessa aos empregados da Caixa admitidos até 31.03.1997, conforme o regulamento RH115. Na prática, são os concursados de 1989 e anos anteriores, uma vez que as vantagens incorporadas não foram estendidas para os empregados já admitidos pelo PCCS de 1998. Embora não mais atinja a totalidade dos empregados, visto que os “pré-98”, como são chamados, hoje conformam apenas 25% dos ativos aproximadamente – e nem seja assim, digamos, um tema tão novo assim – ganhou relevância nos últimos meses, já que a cúpula do Tribunal Superior do Trabalho, a SBDI-I, posicionou-se favoravelmente aos empregados no final do ano passado.

Para entender direitinho do que se trata, é preciso iniciar pelo nome e sobrenome das VPs: vantagens pessoais incorporadas. Esse nome já traz em si um conceito que tem relevância no mundo jurídico. Uma vantagem incorporada, em palavras muito simples, é um direito devidamente contratado com os empregados (direito adquirido, portanto), mas que a empresa, por algum motivo, deixa de oferecer aos “novos” empregados que resolve contratar. Isso é perfeitamente possível, pois do contrário toda e qualquer empresa no Brasil ficaria engessada em sua política de remuneração dos empregados. Sim, desde que respeitadas as regras básicas de equiparação salarial (identidade funcional, de produção, de local, de tempo e, para muitos, inexistência de plano de carreira estruturado), é legal admitir que um empregado ganhe menos que outro em idêntica posição. Se a diferenciação é justa ou injusta, isso é outra coisa – mas que é legal, é. E como estamos falando de direitos adquiridos, aqui vigora a máxima de que o contratado não sai caro: se a empresa contratou lá atrás com um empregado o pagamento de determinado direito (um décimo-quarto salário, por exemplo), ela pode até deixar de praticar esse direito para os empregados mais novos, mas não para aquele trabalhador que teve isso pactuado no seu contrato.

E o que ocorreu lá atrás foi exatamente isso: quando a Caixa nem era banco, ela pactuava com os empregados o pagamento de salários extras por ano, como forma de gratificação salarial. Não só ela, mas todas as estatais federais, pois isso era da política remuneratória da época. Aí o Governo determinou a cessação do pagamento dos salários-extras e, para não violar os direitos adquiridos, a Caixa (e as demais estatais) converteram isso em vantagens incorporadas. No Banco do Brasil, por exemplo, as vantagens incorporadas tinham o nome de “gratificações semestrais” e, depois da mudança governamental, continuaram sendo pagas mensalmente com esse mesmo nome (vai explicar para um sueco como é possível uma rubrica semestral ser paga mensalmente… coisas do nosso Brasil). No caso da Caixa, esses salários extras foram igualmente convertidos em três verbas incorporadas, hoje registradas pelas rubricas 092, 062 e 049 do RH115, mas receberam fórmulas complicadas, que se baseiam no salário-padrão, no tempo de serviço e nas gratificações de função exercidas dos empregados, sendo também mantidas e pactuadas para os concursados de 1989, como já dito.

Durante a década de 1990, a coisa fluía com normalidade: as funções comissionadas – e é isso que dá problema, no caso das VPs – eram remuneradas por meio de rubrica única, a “FC – Função de Confiança”, com previsão expressa no RH115. O empregado gerente, por exemplo, recebia o salário, a gratificação de função e o esperado acréscimo decorrente das vantagens incorporadas, que é de aproximadamente 40% sobre a remuneração básica acrescida da função.

Só que, a partir de 1998, a intenção declarada da Caixa era a de segurar os gerentes, que estavam se evadindo para o mercado privado. O concurso de 1998 foi nitidamente preparado para isso, com prestígio às carreiras gerenciais, cujas respectivas gratificações foram de fato aumentadas na tabela de remuneração das funções do regulamento RH115, recebendo um novo nome (“CC – Cargo em Comissão”, substituindo o nome “FC – Função de Confiança”) para destacar esse aumento. Obviamente, um concursado “novo”, da leva de 1998, já chegou na empresa com a vantagem de ser mais bem remunerado caso fosse alçado a gerente. Só que muito poucos empregados já existentes na casa não perceberam que esse aumento na tabela de funções foi meramente nominal e serviu somente aos “novos”, pois resultou num acréscimo muito pequeno no contracheque mensal, o que para alguns sequer ocorreu.

E é aí que entra o velho conceito jurídico das vantagens incorporadas, acima exposto. Ora, se, por exemplo, eu tenho dois operários de fábrica – um antigo, com pacto de dois salários a mais por ano, pago em frações mensais, e um novo, sem essa cláusula – isso significa que, ganhando o novo R$ 1.000,00 mensais de salário, mais uma verba de incentivo mensal qualquer de outros R$ 1.000,00 (salário total de R$ 2.000,00), o mais antigo deverá receber R$ 2.000,00 + 1/6, ou seja, R$ 2.334,00, pois há vantagem incorporada ao recebimento mensal de 1/6 sobre o salário previsto em folha.

No entanto, o que a indústria fez, pra não impactar na sua folha de pagamentos já existente? Ela trocou o nome da verba de incentivo, passando a chamá-la de “gratificação de incentivo”, e a aumentou para os dois operários, de R$ 1.000,00 para, digamos, R$ 1.400,00 mensais. O “novo” teve um baita aumento, de R$ 2.000,00 para R$ 2.400,00, e ficou feliz. Entretanto, ao mesmo tempo, para o “antigo” a empresa modificou a forma de pagamento da vantagem de incentivo, que passou a ser calculada com base em apenas um salário, e não mais nos dois de antes. Assim, o “antigo” passou a receber a vantagem não mais de 1/6 (R$ 400,00), mas de 1/12 (R$ 200,00) sobre a remuneração, resultando num contracheque de R$ 2.600,00. Como o contracheque ficou maior que antes, o operário antigo também comemorou, mas nem notou que, em verdade, ele tomou um baita prejuízo: afinal, respeitado o seu direito adquirido, seu contracheque deveria ser de R$ 2.800,00 no mês!

Foi exatamente o que a Caixa fez, voltando agora para a realidade: a partir de ano de 1998, a empresa simplesmente anulou os efeitos práticos das vantagens incorporadas para os empregados “antigos”, que já estavam na empresa antes do concurso da época. De fato, o valor da tabela de funções foi aumentado, só que para todos, novos e antigos, o que geraria naturalmente o recálculo das vantagens incorporadas, conforme o exemplo simples da indústria acima narrado. Entretanto, para evitar esse aumento na folha de salários do pessoal já existente, a empresa trocou a sigla da gratificação de função, de “FC” para “CC”, e passou a não mais considerá-la na conta das vantagens, alegando tratar-se de rubricas distintas. A diferença resultante dessa exclusão é exatamente o aumento na tabela de funções, gerando, ao final, um “aumento zero” nos contracheques dos antigos. Não houve prejuízo salarial aparente, meramente formal, mas houve inegável prejuízo jurídico e financeiro, pois se a tabela de funções aumentou para todos, novos e antigos, por óbvio que as vantagens pessoais, que se baseiam no valor das funções e que são, talvez, a expressão máxima do direito adquirido na seara trabalhista, deveriam ser aumentadas também – e, ao contrário, foram diminuídas.

Só que a lesão não pára por aqui, e tem a ver com uma das maiores bizarrices jurídicas de todos os tempos: o conhecidíssimo “CTVA – complemento temporário variável de ajuste”. Bem ao contrário do que o nome induz a acreditar, não se trata de mero complemento salarial, pois só é pago exclusivamente para os comissionados em função, como contraprestação da função comissionada; e muito menos é “temporário”, salvo se alguém acreditar que uma verba paga continuamente durante dez, vinte anos seja algo temporário… Em verdade, o CTVA resultou justamente da intenção da Caixa de eliminar os efeitos das vantagens incorporadas, e poucos sabem disso. Ao invés de conceder um grande aumento no valor das funções comissionadas – o que geraria um outro grande impacto na folha salarial dos empregados anteriores a 1998, caso o pagamento das vantagens pessoais fosse feito corretamente – a empresa decidiu segregar parte da gratificação de função por meio do CTVA, e de aplicar um sistema de remuneração de piso de funções. Em lugar de somente remunerar a função, o CTVA serviu como um “amortecedor salarial”, nivelando “novos” e “antigos” até o valor final previsto na tabela de funções. E como a empresa nunca reconheceu o óbvio – que o CTVA é gratificação de função – ele também não entrou na conta das VPs. Então, mágica! Do dia para a noite, um gerente PF do concurso de 1989, com direito às vantagens incorporadas, passou a ganhar exatamente o mesmo que um colega admitido em 2000, de mesmíssima função, mesma agência, e sem direito às vantagens. Pode isso, Arnaldo?

Não pode, e por essas razões o TST, já tem algum tempo, pacificou não só em suas Turmas, como na Cúpula (SBDI-I), o entendimento de que as vantagens pessoais incorporadas, ou “VP-GIPs”, devem, sim, ser calculadas com a consideração das rubricas “CC – Cargo em Comissão” e “CTVA”. O seguinte julgado fala por todos os demais:

“EMBARGOS. BASE DE CÁLCULO DAS VANTAGENS PESSOAIS. CARGO COMISSIONADO. CTVA. PCS/98 RH 115. ALTERAÇÃO EM PREJUÍZO. A alteração do critério de cálculo da parcela denominada “Vantagens Pessoais”, em razão da exclusão do valor referente ao cargo em comissão e da CTVA, ocorrida com a implantação do PCS/98, retrata alteração do contrato em prejuízo, uma vez que o direito a metodologia de cálculo anterior já se incorporara ao patrimônio jurídico dos empregados da CEF, a justificar o deferimento das diferenças salariais pertinentes. Precedentes do Tribunal. Embargos conhecidos e providos.” (E-ED-RR – 2176-78.2011.5.12.0010, Relator Ministro: Aloysio Corrêa da Veiga, Data de Julgamento: 01/06/2017, Subseção I Especializada em Dissídios Individuais, Data de Publicação: DEJT 09/06/2017)

A Caixa viu, então, malograr na Justiça sua intenção de anular na prática o pagamento as vantagens pessoais, e ainda em 2008 editou a “Estrutura Salarial Unificada”, onde sequer disfarçou o interesse declarado de exigir, dos empregados, renúncia das vantagens pessoais e desistência de ações judiciais relativas, travestido sob a forma de uma indenização irrisória que não supera dois meses de diferenças devidas. Com a ESU/08, aderida pela maioria dos empregados num contexto de pressão extrema como a história conta, o plano era o de “incorporar” de vez as vantagens pessoais na rubrica básica de salário-padrão, dando um ponto final derradeiro no assunto, o que eterniza o prejuízo salarial até a aposentadoria dos empregados.

E é aí que entra a recente decisão da cúpula do TST, a SBDI-I: no final do ano passado, essa adesão à ESU/2008, embora tenha sido declarada válida, foi declarada inválida no ponto em que exigiu renúncia e quitação do direito às vantagens pessoais, uma vez que isso afronta a garantia respeito aos direitos adquiridos dos empregados. São dois os Acórdãos do TST que norteiam, agora, o posicionamento sobre o assunto:

RECURSO DE EMBARGOS EM RECURSO DE REVISTA REGIDO PELA LEI Nº 13.015/2014. CEF. ADESÃO À NOVA ESTRUTURA SALARIAL UNIFICADA. ESU/2008. EXIGÊNCIA DE RENÚNCIA DE DIREITOS. É certo que a opção de que trata a Súmula nº 51, II, do TST enseja a existência de real liberdade de decisão do empregado. Assim, não se admite que a escolha, supostamente atribuída ao trabalhador, represente, na verdade, mecanismo de coação de sua vontade. No caso, tem-se por caracterizada condição coercitiva do consentimento do empregado, uma vez que o crescimento na empresa fica condicionado à efetiva adesão à nova Estrutura Salarial Unificada (ESU-2008), implantada pela CEF, única hipótese que se contrapõe ao quadro de extinção. Assim, traduz abuso de poder a exigência de renúncia de direitos já incorporados ao patrimônio jurídico pessoal do trabalhador, inclusive quanto a eventuais ações judiciais, para a efetivação daquela opção. Nesse sentido, aliás, o mais recente pronunciamento da SBDI-1 deste Tribunal acerca da matéria. Recurso de embargos de que se conhece e a que se dá provimento.” (E-RR – 1656-32.2010.5.01.0343, Relator Ministro: Cláudio Mascarenhas Brandão, Data de Julgamento: 19/10/2017, Subseção I Especializada em Dissídios Individuais, Data de Publicação: DEJT 27/10/2017)

“RECURSO DE EMBARGOS EM RECURSO DE REVISTA. INTERPOSIÇÃO SOB A ÉGIDE DA LEI 13.015/14. CAIXA ECONÔMICA FEDERAL. ADESÃO À NOVA ESTRUTURA SALARIAL UNIFICADA (PCS/2008) DA CAIXA ECONÔMICA FEDERAL. CONDIÇÕES IMPOSTAS PELA EMPREGADORA. QUITAÇÃO DE PARCELAS RELATIVAS AO ANTERIOR PLANO DE CARGOS E SALÁRIOS. INVALIDADE. A respeito da adesão à nova estrutura salarial unificada da CEF (PCS/2008), esta Colenda Subseção possui firme entendimento no sentido de ser incabível a exigência de quitação e/ou renúncia a direitos referentes ao anterior Plano de Cargos e Salários para adesão ao novo plano, devendo ser resguardado o direito de opção do trabalhador ao regulamento que entender lhe ser mais favorável, por se tratar da coexistência de dois regulamentos jurídicos, razão por que inválida a cláusula que estabelece tal condição como requisito para a adesão ao novo Plano de Cargos e Salários instituído pela Caixa Econômica Federal. Recurso de embargos conhecido e provido” (E-RR – 564-47.2013.5.04.0014, Relator Ministro: Hugo Carlos Scheuermann, Data de Julgamento: 14/09/2017, Subseção I Especializada em Dissídios Individuais, Data de Publicação: DEJT 22/09/2017)

Esse entendimento final do TST é bem recente, como visto, e é preciso registrar que vários Tribunais Regionais ainda tem posicionamento desfavorável aos empregados, e talvez nunca venham a mudar de opinião. Portanto, a ciência sobre o posicionamento do TST é fundamental, pois é a Corte Superior, em Brasília, quem tem a missão de dar a palavra final sobre qualquer assunto jurídico no Direito do Trabalho. E, concluindo, destacamos que o tema é contemporâneo, pois também está “pacificado” no TST que a possibilidade de revisão das vantagens pessoais só sofre prescrição “parcial”, sendo possível cobrança de atrasados dos cinco anos anteriores ao ajuizamento da ação.

Jornada de seis horas para todos os concursados da Caixa de 1989: um direito que se confirma no TST

Inauguramos nosso blog com um assunto que interessa demais aos concursados da Caixa de 1989 e anteriores: a jornada de seis horas, assegurada pelo plano de carreira da época como um direito adquirido de todos os empregados independentemente da função exercida, ainda que a de gerente-geral e mesmo a de superintendente regional da empresa.

Já comentávamos, nas postagens e palestras que proferimos, que a posição do Tribunal Superior do Trabalho a cada dia vinha se consolidando no reconhecimento desse direito e da correspondente paga das duas horas extras diárias. Esse direito não passa pela discussão sobre se o cargo bancário exercido pelo bancário é ou não de “gestão” (art. 62 CLT) ou “de confiança” (art. 224, §2º CLT), pois se trata de um direito plasmado num plano de carreira, cuja natureza contratual é evidente, e que assegura como um verdadeiro direito adquirido a jornada de seis horas, porque foi assim o pacto firmado com os empregados concursados de 1989, bem como com aqueles mais antigos, que também receberam a disciplina contratual do PCS/89.

Agora, a tendência está mais que confirmada, ao menos na nossa opinião: as oito Turmas do TST expressam esse mesmo entendimento, segundo recente pesquisa jurisprudencial que elaboramos para municiar um processo por nós conduzido:
“RECURSO DE REVISTA. CAIXA ECONÔMICA FEDERAL. HORAS EXTRAS. BANCÁRIO. GERENTE GERAL. PLANO DE CARGOS COMISSIONADOS DE 1989. JORNADA REDUZIDA DE SEIS HORAS. IMPLANTAÇÃO DO PLANO DE CARGOS COMISSIONADOS DE 1998. ALTERAÇÃO PARA JORNADA DE OITO HORAS. IMPOSSIBILIDADE. A jurisprudência desta Corte é firme no sentido de que a previsão contida no Plano de Cargos Comissionados de 1989, relativa à jornada de seis horas diárias, aplicável aos empregados ocupantes de cargo gerencial, constitui norma mais favorável que adere ao contrato de trabalho dos empregados admitidos na vigência da norma interna, motivo pelo qual não pode ser alterada mediante a implantação de norma posterior, consubstanciada no Plano de Cargos Comissionados de 1998, que estabeleceu jornada de oito horas aos ocupantes de cargos de confiança, diante do que dispõe o art. 468 da CLT. Precedentes. Incidência do disposto no art. 896, § 7º, da CLT. Recurso de revista de que não se conhece.” (RR – 49800-54.2008.5.04.0721, Relator Ministro: Walmir Oliveira da Costa, Data de Julgamento: 30/08/2017, 1ª Turma, Data de Publicação: DEJT 01/09/2017)
“(…) Portanto, o benefício da jornada de seis horas, uma vez instituído pela empresa, incorpora-se ao contrato de trabalho de seus empregados, sendo irrelevante, na hipótese dos autos, a discussão sobre as atribuições do reclamante, com o fito de caracterizar a fidúcia bancária, seja na forma do art. 62, II ou art. 224, § 2º, ambos da CLT. A decisão do Tribunal Regional, portanto, ao aplicar a norma vigente à época da contratação do reclamante (OC DIRHU 009/88), decidiu a controvérsia em consonância com a jurisprudência do TST. (…)” (RR-13700-30.2007.5.04.0012, Relatora Ministra: Delaíde Miranda Arantes, Data de Julgamento: 25/10/2016, 2ª Turma, Data de Publicação: DEJT 28/10/2016)
“(…) Na hipótese dos autos, o Tribunal Regional considerou ser incontroverso que o Reclamante foi admitido em 1983 e que, no período não prescrito da contratualidade, exerceu o cargo de gerente geral ou Superintendente Regional de Negócios (art. 62, II, da CLT). A Corte de origem assinalou que a norma interna da CEF, em vigor à época em que o Autor foi admitido, garantia a jornada de seis horas para as funções de chefia e cargos comissionados ou gerenciais. (…) Com efeito, é certo que os dispositivos do regulamento empresarial ingressam nos contratos individuais de trabalho como se fossem cláusulas, razão pela qual não podem ser suprimidos da esfera jurídica dos empregados, ainda que alterado o seu conteúdo. Como cláusulas contratuais, aplica-se-lhes o disposto no artigo 468 da CLT, entendimento já sedimentado na Súmula 51, I, do TST. Incide, na espécie, o princípio da inalterabilidade contratual lesiva. Recurso de revista conhecido e provido no tópico, com o consequente retorno dos autos ao Tribunal de origem para que analise os direitos a que faz jus o Reclamante conforme entender de direito, observando-se a jornada de 6 horas. Prejudicada a análise dos demais temas. (…)” (ARR – 1168-15.2011.5.15.0097, Relator Ministro: Mauricio Godinho Delgado, Data de Julgamento: 09/11/2016, 3ª Turma, Data de Publicação: DEJT 11/11/2016)
“(…) HORAS EXTRAS. CARGO EM COMISSÃO. ALTERAÇÃO DO REGULAMENTO. DIREITO ADQUIRIDO. Infere-se dos autos que o Reclamante foi contratado em 1981, quando em vigor o PCS de 1989, que, por meio da Circular DIRHU 009/88, tratava da adequação do Plano de Cargos, Salários e Benefícios da CEF, prevendo uma jornada de seis horas diárias para seus empregados, inclusive os exercentes de cargos comissionados. Portanto, a implantação do novo PCC/98, que estabeleceu a jornada de oito horas para os cargos comissionados, modificou vantagens anteriormente deferidas, não podendo, assim, atingir os empregados já contratados. Trata-se, com efeito, de cláusula mais benéfica, que passa a integrar o contrato individual do empregado, nos termos do item I da Súmula n.º 51 desta Corte. (…)” (RR – 2473-95.2014.5.12.0005, Relatora Ministra: Maria de Assis Calsing, Data de Julgamento: 21/02/2018, 4ª Turma, Data de Publicação: DEJT 23/02/2018)
“RECURSO DE REVISTA INTERPOSTO NA VIGÊNCIA DA LEI Nº 13.015/2014. (…) BANCÁRIO. HORAS EXTRAS. JORNADA DE 6 HORAS DIÁRIAS. VINCULAÇÃO AO PLANO DE CARGOS E SALÁRIOS DE 1989. ALTERAÇÃO DE JORNADA PARA 8 HORAS DIÁRIAS. NOVO PLANO DE CARGOS E SALÁRIOS DE 1998. ALTERAÇÃO CONTRATUAL LESIVA. SÚMULA 51, ITEM I, DO TST. (…) V – Ou seja, o benefício da jornada de seis horas passou a integrar o contrato de trabalho do recorrente e a revogação da vantagem por meio de norma interna posterior implica alteração contratual lesiva, vedada pelo artigo 468 da CLT. VI – A partir dessas considerações é irrelevante a circunstância de que a função de gerência fora desempenhada no período de vigência do novo plano de cargos de salários instituído em 1998, com a finalidade de se demonstrar a existência de fidúcia, nos moldes do artigo 224, § 2º, da CLT. Tampouco o exercício do cargo de gerência posterior ao PCS de 98 é suficiente para demonstrar eventual opção do empregado pelo novo regulamento empresarial. VII – Reconhece-se, portanto, a jornada de seis horas prevista na norma interna da CEF vigente à data de admissão do reclamante, ora recorrente. Precedentes. VIII – Recurso de revista conhecido e provido.” (RR-40-16.2013.5.12.0018, Relator Ministro Antonio José de Barros Levenhagen, 5ª Turma, DEJT 24/3/2017)
“RECURSO DE REVISTA DO RECLAMANTE. INTERPOSIÇÃO NA VIGÊNCIA DA LEI Nº 13.015/2014. HORAS EXTRAS. PLANO DE CARGOS E SALÁRIOS. CEF. ALTERAÇÃO DA JORNADA DIÁRIA DE TRABALHO DE SEIS PARA OITO HORAS. FALTA DE PROVA DA OPÇÃO PELO NOVO PLANO (…) Nesse contexto, em que não há opção do reclamante pelo novo plano, e por se tratar de regra mais benéfica, a norma que prevê a jornada de seis horas – PCS/89 – incorporou-se ao seu patrimônio jurídico, e não se aplicam as alterações prejudiciais posteriores – PCS/98, nos termos da Súmula nº 51, I, do TST. 5 – Recurso de revista a que se dá provimento.”
(RR-1046-59.2013.5.04.0025, 6ª Turma, Relatora Ministra Kátia Magalhães Arruda, DEJT 29/4/2016)

“(…) BANCÁRIO. HORAS EXTRAS. GERENTE GERAL. JORNADA DE TRABALHO. PLANO DE CARGOS COMISSIONADOS DE 1998. MAJORAÇÃO DA CARGA HORÁRIA DIÁRIA DE 6 PARA 8 HORAS. REVOGAÇÃO DE VANTAGEM DEFERIDA ANTERIORMENTE. SÚMULA 51, ITEM I, DO TST. I – Na hipótese dos autos, não obstante o reclamante exercesse o cargo de gerente geral de agência, devendo, em tese, estar inserido na exceção do artigo 62, II, da CLT, certo é que sua jornada de trabalho, nos termos das cláusulas regulamentares, desde o princípio, era de seis horas diárias. (…) III – Com isso, sobressai a certeza de que, ao manter a condenação ao pagamento das horas extras, assim consideradas as excedentes da sexta diária, no período em que o reclamante foi gerente geral, a Corte de origem dirimiu a controvérsia em plena consonância com a Súmula 51, I, do TST. (…)” (RR – 172900-63.2008.5.12.0029 , Relator Desembargador Convocado: Roberto Nobrega de Almeida Filho, Data de Julgamento: 08/11/2017, 7ª Turma, Data de Publicação: DEJT 10/11/2017)
“(…) ALTERAÇÃO CONTRATUAL LESIVA – JORNADA DE TRABALHO – CARGO GERENCIAL – HORAS EXTRAS – NORMA REGULAMENTAR MAIS BENÉFICA DO QUE A DISPOSIÇÃO LEGAL SOBRE A MATÉRIA 1. No caso, o benefício da jornada de seis horas passou a integrar o contrato de trabalho do Autor e a revogação da vantagem através de norma interna posterior implica alteraçãocontratual lesiva, vedada pelo artigo 468 da CLT. 2. A circunstância de o Reclamante ter exercido funções comissionadas apenas quando já estava em vigor o PCC/1998 não se revela suficiente para excluir direito já incorporado à sua esfera jurídica. Julgados. 3. A jurisprudência desta Eg. Corte reconhece o direito à jornada mais benéfica prevista em norma regulamentar aos empregados, ainda que haja disposição legal com durações mais amplas do trabalho. Precedentes. Recurso de Revista conhecido e parcialmente provido.” (RR – 1152-58.2012.5.15.0022, Relatora Ministra: Maria Cristina Irigoyen Peduzzi, Data de Julgamento: 11/04/2018, 8ª Turma, Data de Publicação: DEJT 13/04/2018)

O posicionamento de todas as Turmas do TST abraça o entendimento já consagrado por alguns dos Tribunais Regionais, especialmente o de Brasília (10ª Região) e o do Rio Grande do Sul (4ª Região), cumprindo acrescentar que vários outros Regionais ainda não reconhecem o vigor atual do direito adquirido à jornada de seis horas, especialmente por conta do entendimento de que a isso se aplicaria a prescrição total, sendo tardia a cobrança das horas extras em tempos atuais.

Contudo, considerando a harmonização do entendimento das Turmas do TST sobre a matéria, é bem provável que o entendimento da Corte Superior vá, aos poucos, sendo assimilado pelos Tribunais Regionais que hoje pensam diferente – ao menos, essa é a nossa esperança.